Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros, um dos mais reconhecidos nomes da literatura brasileira contemporânea, nasceu em 1959 na cidade de Bela Vista (MS). Doutor em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente é professor de Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),além de tradutor, ensaísta e poeta. Atua, entre outras áreas, no estudo de heróis, mitos  e deuses. Como tradutor, verteu na íntegra para o português a cosmogonia maia-quiché Popol Vuh (2007). Suas obras que podem ser consideradas dentro da perspectiva ecocrítica pouco fazem referência à paisagem humana, abordando no entanto o que chama desex appeal vegetal.

Em Sexo vegetal (2009), publicado  nos Estados Unidos como Vegetal Sex (2010) sob a tradução de Raymond L. Bianchi, os estudos de Sérgio Medeiros sobre cosmogonia geram uma obra poética baseada nos mitos ameríndios da gênese humana. A partir da crença indígena de que as árvores deram origem aos homens, o autor faz uma exaltação à capacidade erótica dos vegetais e um elogio ao “começo”. O livro não inclui o sexo animal e de forma alguma liga analogicamente as relações vegetais ao comportamento humano. Ao contrário, ele destaca a atividade vegetal como uma vida autônoma. Somos apenas observadores ou uma pequena parte, quando permitido, de um ambiente natural independente. Segundo o autor, o potencial erótico dessa obra “alarga as fronteiras daquilo que é comumente considerado atividade sexual humana e permite erotizar plantas e árvores, por exemplo”.

Totens (2012), reúne dois trabalhos distintos, mas interligados do poeta. Na primeira parte, Medeiros amplia a importância da personagem Enrique Flor, um tocador de um órgão selvagem e especialista em música vegetal criado pelo escritor irlandês James Joyce no clássico romance Ulisses. Um português de forte traço irlandês, Flor se apresenta em elegantes casamentos das pessoas que têm nomes de árvores e flores, simbolizando a comunhão entre homem e natureza. Vive por um tempo em sua terra natal e também na Irlanda até chegar ao Brasil, onde se rende à beleza vegetal dos trópicos e vive admirando o ambiente natural.

Na segunda parte, os protagonistas são os Eletoesqus, seres de pele encardida e cabelos longos. Figuras lendárias da cultura da região de fronteira do Brasil com o Paraguai, convivem com outras criaturas estranhas e o BAFO, “vilão tropical” sem forma definida. Nesse texto de estilo nonsense, homem, animal, vegetal e divindade viram elementos indissociáveis do totem (escultura tradicional feita por antigas tribos indígenas da América do Norte, na região da Costa do Pacífico. Representava os protetores espirituais das aldeias esculpidos um como complemento do outro, sendo eles pessoas, animais, plantas e até objetos). Em seu livro, Medeiros utiliza a ideia estrutural que interliga os elementos dos totens como metáforas e associações que fundem ser humano e natureza em poemas complexos que beiram o surrealismo.

Figurantes (2011), uma sequência de cem poemas numerados sobre os seres do mundo  não humano, é um exercício de olhar e observação sobre a cidade de Florianópolis, onde Medeiros reside desde 1997. “Descrevo a cidade a partir dos seus figurantes – os insetos, as abelhas, os índios, todos os personagens dos mitos”, explica. Na obra, moscas e abelhas, por exemplo, contam suas impressões enquanto passeiam pela capital catarinense. Detalhista, o texto transfere a visão direta do ser humano para os figurantes da cidadeque captam “o que ficou sem ser visto” e relatam uma Florianópolis surpreendente.

Em sua mais recente publicação de poesia O choro da aranha etc. (2013), que também pode ser considerada uma produção ecopoética, Medeiros transpassa os limites entre vida e poesia em textos sobre o meio ambiente natural e  urbano no mesmo espaço. Na primeira parte do livro, intitulada “O choro da aranha ou saudades de São Paulo”, os poemas se constroem a partir de um olhar atento aos detalhes da natureza presentes nos centros urbanos, como o agitado cãoque assiste à movimentação na rua ou o delicado vaso de flor na janela do vizinho, tema do poema “As orquídeas de antes de anteontem”: “A chuva / Vidraças salpicadas de gotas / A língua escura da flor / De um roxo grosso(…)”. Já na parte “Jerônimo Tsawé (Aparição urbana)”, composta por um único poema, Medeiros cria o que Douglas Diegues define, no prefácio da obra, como “personagem fantasma” que surge e desaparece de um texto que pretende dissolver os limites entre  cidade e selva.O poeta escreve: “Enquanto o carros passam / Quase grudados / Um xavante / Na calçada / Apoiado num bastão / Como num totem / Olha tranquilamente / Para o lado de onde vem / Esse trânsito intenso(…)”Nesse trecho do poema, a aparição do xavante representa, Diegues explica,“paisagens naturais e urbanas vistas através do espelho”.

Sérgio Medeiros também é autor dos livros de poesia:Mais ou menos do que dois (2001),Alongamento (2004) e Totem & Sacrífio, em edição bilíngue português e epanhol (2007).Sobre as tradições oraisindígenas da Amazônia, lançou recentemente a publicação de contosO desencontro dos canibais (2013), que amplica a ideia do sex appeal vegetal a partir do mito ameríndio sobre o Jurupari, também chamado de “filho da fruta”, por ter mãe humana e pai vegetal. Desde de 1997 o escritor trabalha da reedição da obra do Visconde de Taunay.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s