Josely Vianna Baptista

Josely Vianna Baptista nasceu em 1957 em Curitiba, capital do Paraná. Graduada em Língua e Literatura Espanhola e Literatura Hispano-americana pela Universidade Federal do Paraná, possui especialização em Semiótica e curso de Língua e Cultura Guarani. Editora, poeta e tradutora, já verteu, do espanhol para o português, mais de 100 títulos de prosa, poesia e ensaio. Dois de seus trabalhos mais importantes foram Luna de enfrente e Cuaderno San Martín, de Jorge Luis Borges, que renderam a Josely o Prêmio Jabuti de Tradução (1999). Também organizou e editou a coleção Cadernos da Ameríndia, que apresenta, por meio de ensaios e traduções, peças da mitopoética oral das etnias Mbyá-Guarani e Nivacle.

Uma das mais inventivas poetas brasileiras contemporâneas, Josely tem livros publicados no Brasil, no México e nos Estados Unidos. Em Corpografia (1992), que reúne poemas de Josely Vianna Baptista e desenhos do artista plástico Francisco Faria, texto e imagem se complementam – a aeração do texto (separação das letras até o limite do legível) dá um novo ritmo à leitura e os desenhos sugerem um percurso escandido do olhar: atenção completa sem o domínio da vontade é a maneira de uma paisagem surgir no olhar. A obra pulsa na energia criada pela diferença entre a proximidade, a urgência (a calentura dos sentidos e desenhos meticulosos) e a distância meditativa (a escansão da fala e uma indefinida nostalgia das imagens): “A vida: uma alegria de fotografia? e um amor me abre em vale de talvez passagens, essa miragem que é gen de paisagens, corpografia em voga e viagem, nessa vertigem de teu sorriso que nem o tempo, rede de elipses, mina”. Esse trecho da seção “Espelho ardente” é um exemplo de como Josely aproxima ser humano e natureza, indicando o corpo como passagem, a natureza como paisagem, e o desejo como percurso.

Em Sol sobre nuvens (2007), reunião de vários livros da autora, Josely compõe um trabalho em que o humano e o ambiente se completam, sem que haja limites definidos para separá-los, a voz como um momento de transporte e transformação do indivíduo no outro e na paisagem. O volume inclui textos de Os poros flóridos (2002), publicado no México (Los poros floridos), que expressam a relação entre sentimento, corpo, linguagem e natureza. “Os poros flóridos, / gotas de sangue / em flores, espessura / do corpo que morre e / renasce em leito / de nevoeiros (…) / no ar de uma palavra / entre a palavra-alma, / entra a palma das mãos / e em renovos velosos, no / veludo dos brotos, / no gozo de teu riso / em corpo de linguagem”. Neste trecho de um dos poemas sem título da parte IV de Sol sobre Nuvens (2007), o ser humano, ao mesmo tempo corpo e memória, se mistura à paisagem, faz parte da paisagem, e sua fala cria um corpo e um percurso. No nascimento e na morte, o corpo não está fechado em sua autosuficiência, mas sempre em percurso na natureza e na palavra.

Em Roça Barroca (2011), a poeta compõe uma breve suma do transcurso que une a mitopoética indígena (nos cantos da etnia Mbyá-Guarani, da região do Guairá, no Paraguai, e do Paraná, no Brasil) aos temas de sua própria criação poética. Uma mescla de tradução e criação, o livro traz as versões poéticas em português dos três primeiros cantos do Ayvu Rapyta (o mito da criação dos Guarani, coletado por Leon Cadogan), traduzidos por Josely diretamente do mbyá-guarani. Na parte final do livro, intitulada “Moradas nômades”, os versos imergem no tempo e nos sons da criação da palavra. Os poemas que complementam as traduções de Roça Barroca (2011) retratam ritos de passagem, reprodução e morte: “no rumo / de seu desfecho / um homem ouve / o som rouco / (…) do torém / sem remo / (…) seu bote / transpõe / a esmo / o curso do termo / extremo”. Nessa passagem citada, ressoa o som que une uma pessoa com a natureza no momento de sua morte, que acontece no rio ao som rouco do torém, a trombeta ritual indígena que emite sons lúgubres e roucos. Roça Barroca foi um dos vencedores do Prêmio Jabuti de Poesia e um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom, em 2012.

Josely Vianna Baptista também publicou Ar (1991) e Outro (em co-autoria com Arnaldo Antunes, no álbum de arte homônimo de Maria Angela Biscaia, 2001). Uma coletânea de seus poemas foi lançada nos Estados Unidos em versão bilíngue (português e inglês) sob o título de  On the Shining Screen of the Eyelids (2003), com tradução de Chris Daniels. Em 2002, seu livro A Concha das Mil Coisas Maravilhosas do Velho Caramujo (ilust. Guilherme Zamoner) recebeu o VI Prémio Internacional del Libro Ilustrado Infantil y Juvenil do Governo do México. Em 2004, publicou Musa Paradisiaca: antologia da página de cultura 1995/2000, coligindo parte de seu amplo trabalho de jornalismo cultural. Em 2014 publicou os livros para crianças Universos paralelos: desencuentros y centelleos e Os sete bichos da Primeira Terra e suas sombras. Participou de antologias editadas no México, Peru, Argentina, Estados Unidos, Cuba, França, Paraguai, Colômbia, Bélgica, Holanda, Espanha e Austrália. Em 2009, teve seu trabalho representado em The Oxford Book of Latin American Poetry (Nova York, Oxford University Press. Org. Ernesto Livon-Grosman e Cecilia Vicuña).

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