Astrid Cabral

Astrid Cabral nasceu em 25 de setembro de 1936 em Manaus, Amazonas. Cresceu numa casa com grande jardim e quintal, onde animais e plantas estavam sempre ao alcance da mão e da imaginação. Até os 18 anos morou a maior parte do tempo na capital, que conciliava progresso econômico e ambiente natural numa época em que, segundo Cabral, “a natureza ainda coexistia exuberantemente com o a sofisticação urbana”. As mais diferentes criaturas fizeram parte da formação de Astrid Cabral como pessoa e escritora, e marcam suas obras com a sensibilidade de quem nunca rejeitou a própria animalidade.

Durante a década de 1950, Astrid Cabral integrou o renovador movimento literário Clube da Madrugada, ainda no Amazonas. Na adolescência se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras Neolatinas pela atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nos anos 60, época em que lecionava na Universidade de Brasília, abandonou o cargo em protesto, solidária com seus colegas cassados pela ditadura militar de 64 e só retomou a carreira acadêmica após o fim do regime. Contista e poeta, já publicou mais de 10 livros de poesia e traduziu Walden e Civil Desobedience, do pensador ecologista norte-americano Henry David Thoreau. Sob análise da ecocrítica, seus poemas ressaltam a relação entre o ser humano e os animais, o amor pela natureza e a preocupação ecológica.

Cage (2008), edição bilíngue em português e inglês da antologia de poemas Jaula (2006), é um retorno de Astrid Cabrala o começo. Do quintal de casa à floresta Amazônica e das pequenas lagartixas ao boto cor de rosa, o texto faz um percurso pela infância e crescimento da autora. Já nos últimos poemas, o texto defende a natureza de forma crítica, contestando a equivocada ideia da sociedade em relação à superioridade humana. “Súbito / a revelação / em luz se acende: um segredo a nos unir / (…) Eu também ser de veneno / Eu também ser inepto ao voo. / (…) Então eu toco sem nojo / o corpo da exótica irmã”. Neste trecho do poema “Encontro no jardim”, a voz poética exalta a igualdade entre ser humano e serpente num encontro que verte a reação inicial de estranheza e asco na revelação de uma irmandade. Com poemas complexos e multifacetados, Cage constitui um irreverente guia pelo mundo natural e uma meditação sobre os conceitos de animalidade e humanidade.

Já em Visgo da Terra (1986), as memórias de Astrid celebram a natureza da Manaus de sua juventude em três partes elementares: “Água”, “Terra” e “Seres”. Em poemas saudosos, a autora descreve a natureza não só como quem já fez parte dela, mas como quem sempre a observou com sensibilidade e admiração. Nos versos de “Água Doce”, por exemplo, a beleza e força das águas representam a autonomia dos elementos naturais, capazes de ultrapassar qualquer tipo de controle humano: “A água do rio é mansa / (…) / Mas também transborda e inunda / também é vasta, também é funda / (…) / Afoga quem não sabe nadar. / Enrola quem não sabe remar. / A água do rio é doce / mas também sabe lutar.” Apesar de viver longe de sua terra natal há mais de 50 anos, a autora diz que, em sua poesia “tudo está profundamente enraizado no meu inconsciente ou até na minha ancestralidade. Eu sempre quis a natureza perto de mim, ao meu alcance, dentro de mim”.

Astrid Cabral também faz referências à relação entre o ser humano e o ambiente natural em outras de suas publicações. Em seu primeiro livro, a coletânea de contos Alameda (1963), vegetais se tornam personagens trágicos de estórias que representam o destino da humanidade. Já na produção poética Torna Viagem (1981), Astrid compõe versos de minuciosa contemplação da natureza, com foco no passado histórico do Oriente Médio, onde viveu por três anos. Lição de Alice (1986) crítica em forma poética o tratamento dado pelo homem à natureza e aos animais.

De déu em déu (1998) é a compilação de todas as obras poéticas anteriormente citadas e Rês desgarrada (1984), reunindo os mais diferentes objetivos da poesia de Astrid Cabral. Intramuros (1998), relançado em 2011 em versão ampliada com poemas inéditos, traz a relação da visão subjetiva da autora com a realidade de contato entre urbano e natural das cidades. Nos poemas de Rasos d’Água (2003), o sofrimento humano é lavado pelas águas, comparadas ao movimento e aos ciclos da natureza. Em seu mais recente livro de poesia Palavras da Berlinda (2011), a escritora amazonense compara – principalmente na primeira das duas partes da obra – palavras, poemas e poetas a elementos e seres da natureza, seja pela dureza das pedras, pela leveza da água ou pela engenhosidade das formigas.

Astrid Cabral publicou também Ponto de Cruz (1979) e Ante Sala (2007), o último de cunho mais filosófico considerando a condição humana perante vida e morte.

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